Estátua a D.Nuno Álvares Pereira

Arquitectura - Bruno Barbosa, Inês Ferreira, João Barbosa, Pedro Costa e Sandra Paulo
Concurso - Concepção de Estátua a São Nuno de Santa Maria
Localização - Barcelos, Portugal

















Location of the land of intervention
O presente concurso público, visa homenagear São Nuno de Santa Maria, excelso condestável do reino, sétimo Conde de Barcelos, Herói Nacional e Santo Português. À falta de um elemento simbólico perene que demonstre o agradecimento e louvor que as gentes de Barcelos sentem por nobre conde de sua terra, a Santa Casa da Misericórdia de Barcelos presta esta justa homenagem. Esta reflecte-se na concepção de uma estátua e pedestal a São Nuno de Santa Maria – D. Nuno Álvares Pereira, incluindo os arranjos exteriores da zona envolvente, junto do conjunto Monumental em pleno Centro Histórico de Barcelos.

Respondendo ao repto lançado pela Santa Casa da Misericórdia de Barcelos e após uma análise da biografia de São Nuno de Santa Maria deparamo-nos com uma figura cujo percurso de vida pautou-se por diversos momentos relevantes para a história. Herói Nacional, conciliou o espírito guerreiro com os mais elevados sentimentos religiosos, são exemplos a vitória na Batalha de Aljubarrota em 1385 e a construção do Convento do Carmo em Lisboa iniciada em 1389. Assim como, na expressão de Ortega e Gasset “ O Homem é ele e as suas circunstâncias”, a representação de São Nuno de Santa Maria não se reduz apenas à sua imagem, é também o seu percurso de vida.

Model of the proposal submitted to the competition
Logo, a nossa intervenção não se limita a uma representação figurativa isolada, mas sim, a uma instalação na qual ela se enquadra. A instalação assume-se no terreno em forma de “promenade”, pontuada por 71 peças que simbolizam os anos de vida de São Nuno de Santa Maria. Estas peças variam a sua materialidade consoante a relevância biográfica, sendo as mais importantes inscritas em peças de bronze, com acabamento em pintura de alta temperatura de protecção à água e as restantes realizadas em tela microperfurada iluminada pelo seu interior. A “promenade” ascendente tem início numa peça horizontal representativa do ano em que nasce, passa por duas peças com maior carga simbólica; Batalha de Aljubarrota e integração no Convento do Carmo; nestes dois momentos a distância entre peças aumenta ganhando destaque tanto na relação visual com o entorno, como na composição da sua sombra. 
















Images of the proposal submitted to the competition

A “promenade” termina na estátua a São Nuno de Santa Maria. Um prisma em bronze no qual se encontra esculpido o negativo de uma figura, que para além de santo evidência a faceta de guerreiro e lutador. A estátua marca a última etapa da sua vida e eterniza a sua imagem. No que se refere ao pedestal, este assume-se não como um suporte da estátua, mas sim como um elemento que apela à contemplação da mesma. No pedestal estão ainda inscritos dois factos post-mortem referentes a São Nuno de Santa Maria, a sua beatificação em 1918 e a sua canonização em 2009.

Música e Espaço no Cinema

Entre o visível e o invisível, a Musica e o Espaço são elementos complementares da narrativa no Cinema, contribuindo para a melhor transmissão da mensagem. Por vezes aparecem de forma tão subtil que nem dá-mos pela sua presença, ouvindo de forma inconsciente a sua ressonância.

Musica e Arquitectura ajudam a uma identificação com a cena emocional. Embora essa percepção ocorra imediata e passivamente, o cérebro representa, agrupa e relaciona os sons e imagens com padrões similares, extraindo deles significados emocionais. A Música, domínios verbais e visuais, activam funções distintas do cérebro, complementando-se. 

Os espectadores querem ver e ouvir eventos lógicos e consistentes, formas e sons simples que mais facilmente identificamos, que desde pequenos nos foram introduzidos. Captando assim a nossa atenção, que de outra forma seria dissipada por ruídos estranhos.  

Espaço visual e música têm a capacidade de alterar o estado de espírito ou os sentimentos do espectador, talvez por isso nos atraiam tanto. É importante aqui fazer uma distinção entre o que é indução de estado de espírito e comunicação de significado. O primeiro modifica o que alguém está a sentir, enquanto o segundo simplesmente conduz uma informação. 

Na época do cinema mudo, a música era até catalogada de acordo com o significado emocional produzido por cada uma. Andamentos lentos, contornos melódicos descendentes, graves e sonoridades menores transmitem tristeza. A alegria é comunicada por andamentos rápidos, agudos e sonoridades maiores. A música pode reforçar o carácter expressivo do filme ou entrar em contraponto, criando uma certa ambiguidade ou ironia na cena.

Por vezes somos levados a associar um espaço ou música a um personagem individual ou colectiva, de maneira que na ausência do personagem, a visualização desse espaço ou musica nos fará imaginar esse personagem. 

Através de pormenores arquitectónicos e sonoros, temos a percepção do contexto temporal, cultural e social em que a cena se insere.

Não vemos o mesmo quando ouvimos, nem ouvimos o mesmo quando vemos. Na relação entre som e imagem, a nossa percepção é muito influenciada pelo valor que o som agrega á imagem, alterando a percepção do tempo. Imaginemos imagens fixas, desprovidas de toda a temporalidade, podem-se inscrever no tempo real através de sons de goteamento de água e ruídos de passos. Alterando assim a percepção do tempo da imagem, que se pode fazer mais ou menos fina, detalhada, imediata, concreta ou pelo contrário, vaga, flutuante e ampla.

Podemos ver a música e o espaço como uma máquina do tempo, que nos transporta e conecta com outro lugar e a outro tempo, no futuro e no passado.

João Pedro Barbosa

*Dreams by Akira Kurosawa 
*Metropolis by Fritz Lang
*Mon Oncle by Jacques Tati

Entre Arquitectura e Música

As relações entre Arquitectura (espaço físico) e Música (espaço musical) sempre foram objecto de múltiplas experiências e comparações, por vezes bem curiosas. A proximidade e conexão entre estas duas artes do espaço sempre despertou muito interesse, quer pela parte do arquitecto que facilmente se embrenha na música, quer pela parte do músico que, frequentemente, envereda no mundo da arquitectura, como metodologia de trabalho. 

Embora a visualização de padrões e formas na nossa imaginação, provenientes de memórias visuais, que traduzem as nossas experiências quotidianas, o visual não diminui o aural, torna-se antes, um equivalente imaginário das propriedades corpóreas do som.

Sem se aperceberem, arquitecto e músico facilmente se encontram num espaço arquitectónico a ouvir música, a reflectir e a projectar sobre novos conceitos e ambientes, a pensar na materialização da atmosfera que aquela musica de Stanley Clarke lhe transmite ou como criar o ambiente de final de tarde da casa de chá da Boa Nova. 

No caso da arquitectura, talvez o exemplo mais conhecido seja o arquitecto Iannis Xenakis que trabalhou no atelier de Le Cobusier e mais tarde se dedica inteiramente á composição. Xenaquis, aparentemente, expressa a sua pesquisa a um nível mais formal, abordando entre outras, a natureza do ritmo, transpondo a sua pesquisa e regras de composição musical para a arquitectura, nomeadamente para a composição de fachadas, que reinterpretava como uma pauta musical.  

De uma forma redutora, é certo que ao nível da composição e organização há um paralelo entre ambas as artes, a arquitectura é uma geometrização do espaço e a musica uma geometrização do tempo. Embora esta transposição directa e linear seja um dos pontos de ligação entre as duas artes, as suas ligações abarcam vários cruzamentos e interferências, que fazem avançar a procura de ambas as disciplinas. Os aspectos que nos despertam mais interesse são os aspectos ligados ao cognitivo.

No caso da música, talvez seja interessante mencionar do compositor Fausto Romitelli e a sua visão sobre a experiência perceptiva e material.  

“ No centro da minha composição encontra-se a ideia de considerar o som como um material no qual se mergulha, a fim de forjar as suas características físicas e perceptivas: grãos, espessura, porosidade, densidade de luminosidade e elasticidade. Por isso, é a escultura de som, a síntese instrumental, anamorfose, a transformação da morfologia do espectro, e uma deriva constante para as densidades insustentáveis, distorções e interferências…” Fausto Romitelli
 
Na verdade, mais do que a composição musical, o som é uma realidade da arquitectura. Temos a capacidade de ouvir a arquitectura, a forma como o espaço absorve a vida que a circunda. Ouvir os sons que se produzem, com o vento, com o toque, mas sobretudo, ouvir a reverberação do que nos envolve. Podemos aqui fazer uma referência a Alvin Lucier, compositor americano que abriu campo á experimentação electrónica e á sua interacção com o espaço, explorando esta reverberação de que falamos. Por exemplo, um espaço com pouca capacidade reflectora, abafa os ruídos e parece-nos subitamente mais acolhedor, mas o eco de um espaço vazio, amplia o desconforto da sua nudez. 

Enquanto o olhar se dirige sobre algo mais além, seleccionando algo, o som ou a sua ausência, é algo que nos envolve, que vem até nós sem distinção. Podemos passar na Rua de Santa Catarina e não ver o relógio no topo do edifício de Marques da Silva, mas quando ele toca é o centro das atenções. Podemos não reparar nos pormenores arquitectónicos, mas ouvimos o eléctrico a passar, os pregões das pessoas que vendem meias, os músicos a tocar.

A percepção do som transforma a escala do espaço. Ao ouvir o barulho dos passos num corredor, percebemos a sua dimensão. O som torna-se mensurável. Dando-nos a entender a espacialidade onde nos inserimos.

Da mesma forma como quando observamos o exterior através de um vidro, todos os movimentos se tornam fantasmagóricos, pela ausência ou quase ausência de som. Assim que a porta para o exterior se abrir, saímos do isolamento e mergulhamos na realidade exterior, tornando-nos parte activa desta realidade, experienciando com todos os sentidos a sua pulsação. As notas em constante mudança de tonalidade e ritmos dos sons. Da mesma forma, o jogo de linhas horizontais e verticais, de curvas em direcções diferentes, com manchas de cor que se acumulam e se dissolvem. 

É esta incessante procura por novas experiências cognitivas que nos motiva a continuar. Esta procura por novos ambientes que nos toquem.

João Pedro Barbosa

Life Print

Arquitectura - Bruno Barbosa, Diogo Neto, Inês Ferreira, João Barbosa, Pedro Costa, Raul Cardoso e Sandra Paulo
Concurso - Intanst House | compartimentos celulares para albergar os jovens convidados da  EXPO 2015
Localização - Milão

Presentation of the proposal submitted to the competition





Plans of the proposal submitted to the competition

Sections of the proposal submitted to the competition



Casa Iteso Clavigero - Luis Barragán

Luis Barragán (1902-1988) é um dos arquitectos mais importantes e influentes da arquitectura mexicana. A primeira etapa da sua obra, compreendida entre 1927 e 1935, desenvolve-se em Guadalajara, a sua cidade natal. 

As obras que constrói nesse período caracterizam-se por uma mistura de várias influências, da arquitectura colonial, popular e rural daquela região, com elementos da arquitectura mediterrânea, que apreendeu na sua viagem pela Europa em 1924.

Em 1929 Barragán recebe a proposta para projectar A Casa Iteso Glavigero (Casa Efraín González Luna), que viria a ser uma das suas obras mais importantes da primeira fase da sua carreira.
© João Pedro Barbosa



















Situada numa zona da cidade que na época era habitada pela burguesia, integra-se num amplo terreno de 1750m2. Ladeada por duas parcelas, construídas em toda a sua largura, das quais se afasta, ganhando a sua individualidade, através do vazio criado, que dá lugar a oeste ao caminho para a garagem e a este a um jardim.

Caracterizada pela generosidade dos espaços interiores e pelas grandes superfícies verdes do terreno, a casa distribui-se em dois pisos. No piso térreo desenvolvem-se todas as funções elementares de uma habitação e no piso superior encontra-se a biblioteca González Luna e a capela, abraçados por um terraço, que corresponde á cobertura da quase totalidade do piso inferior.

O que mais me tocou, foi a mudança de ambiente, a forma como desde a rua até ao interior da casa, a atmosfera foi trabalhada por Barragán. Nas ruas quentes de Guadalajara, este espaço “entre”, onde podemos encontrar a sombra, aparece-nos como um oásis no deserto.
                    © João Pedro Barbosa
© João Pedro Barbosa
A habitação afasta-se da rua, criando um jardim como filtro, que pontua uma sequência de espaços, que precedem a entrada na casa. Entramos do lado direito do lote e viajamos através do jardim por um pavimento em pedra, que nos conduz por vários níveis e ambiências até ao interior da casa, proporcionando um acesso gradual desde a rua. 
                                       © João Pedro Barbosa
© João Pedro Barbosa
Os sólidos muros de carga, são recortados por aberturas de diversos formatos, concebendo diferentes maneiras de fazer entrar luz natural em cada espaço. A luz que vem de cima para iluminar a capela, os rasgos verticais das escadas e do corredor, as aberturas altas da sala de estar que não têm vista, servem apenas para iluminar. A maciça porta de entrada que bloqueia qualquer contacto com o exterior, contrastando com a porta de acesso ao pátio, com rasgos translúcidos, insinuando o que podemos encontrar do outro lado.

“La función de la arquitectura debe resolver el problema material sin olvidarse de las necesidades espirituales del hombre.” Luis Barragán

João Pedro Barbosa

waiting for the light

© João Pedro Barbosa
© João Pedro Barbosa
© João Pedro Barbosa
© João Pedro Barbosa

Nostalgia

Á sombra de uma sombra

Almas sem corpo, corpos sem alma, múmias sem desejo deambulam entre nós, tédio. Uma imagem parada, um objecto esquecido, uma cidade inanimada. Pessoas que são sombras, ruínas que se degradam, sonhos, memórias imaculadas, a beleza.

Sentados numa velha cadeira, numa sala parada no tempo com as paredes degradadas, onde o papel de parede já esta amarelado, á luz daquele velho candeeiro bebemos um vinho e saímos desta rede que nos aprisiona. Uma porta para o passado e para o futuro abre-se á nossa frente, como a porta que Alice encontra, que se abre para o país das maravilhas. A procura da verdade? A procura de um ideal? Uma ilusão? É um excelente passatempo, arte.

O instante será realmente eterno? Ou o pitoresco vai desbotando? A eternidade será realmente o instante?

Nostalgia, o devaneio de um sonhador fora do seu mundo próximo, diante de um mundo infinito, o seu. Será uma lembrança? Pura imaginação? Nunca a vemos começar, menos ainda sabemos porque começa. Foge imediatamente para longe e sem aviso, como um clarão intelectual para o espaço do além, bem dentro de nós. Dentro destas ruínas degradas, que um dia tiveram o seu auge, o seu tempo.

A imensidão está em nós, como uma espécie de expansão de ser que a vida nos oferece, mas que a prudência detém, pela sua carga solitária e auto-destrutiva. 

Somos senhores do nosso mundo, nós criamos, nós destruímos, Homens ilimitados.

Temos uma capacidade inata para imaginar e recordar lugares. A percepção, a memória e a imaginação estão em constante interacção, o domínio da presença funde-se com imagens de memória e fantasia, como escreve Milosz em L`amoureuse initiation, “Eu contemplava o jardim de maravilhas do espaço com o sentimento de olhar o mais profundo, o mais secreto de mim mesmo; e sorria, pois nunca me imaginava tão puro, tão grande, tão belo! Em meu coração irrompeu o canto de graça do universo. Todas essas constelações são tuas, estão em ti; não têm qualquer realidade fora do teu amor! Ah, como o mundo parece terrível para quem não o conhece! Quando te sentires sozinho e abandonado diante o mar, imagina como deveria ser a solidão das águas na noite, e a solidão da noite no universo sem fim!”


Em Walden, Thoreau escreve “Um lago é o traço mais belo e expressivo da paisagem. É o olho da terra, onde o espectador, mergulhando o olhar, sonda a profundidade de sua própria natureza.” Estas breves palavras fazem-nos lembrar o filme Nostalgia de Andrei Tarkovsky, onde o lago assume um papel essencial na composição, pelas suas capacidades reflectoras, pelo misticismo e simbologia a ele inerentes. 

Este “quadro” de Tarkovsky remete-nos também para a ideia de casa, o abrigo protector da severidade do tempo e dos agentes naturais, mas também do mundano e do superficial, dessa exterioridade sempre vista como nociva. Este refúgio do ser, está inteiramente relacionado com o termo nostalgia, que na sua origem nasceu da junção dos radicais gregos νόστος: voltar a casa e άλγος: sofrimento. Referindo-se ao desejo sofredor de regressar a casa, ao conforto das nossas memórias contidas nos objectos, nos cheiros, nas texturas, nos sons.

A nostalgia é a idealização do mundo sensível, filtrado pela memória pessoal que procura em cada apreensão do real, ver o invisível, sentir o inteligível, do mensurável ao incomensurável, relacionando-o com experiências perceptivas já vividas, memórias. E não há refúgio ou abrigo onde a plenitude da nostalgia se sinta mais intensamente que no sentimento que designamos por Amor.

João Pedro Barbosa

A arquitectura não se guarda numa imagem

Estava a ler um texto de Louis I. Kahn sobre a luz, e deparei-me com uma frase bem curiosa. Kahn dizia, os poetas estão a tentar escrever poemas sem palavras…. e dei comigo a pensar… 

Será que os arquitectos estão a tentar fazer o mesmo?

A arquitectura como a poesia, tem o seu próprio vocabulário, enquanto a poesia nos toca pelas palavras, que nos transportam para outros lugares, a arquitectura toca-nos pela atmosfera criada, pelos materiais, pelos cheiros, pelas texturas e como estes estão conjugados. Estas duas artes não fazem qualquer sentido sem um receptor activo, que somos todos nós. 

Vendo como a arquitectura é divulgada, a forma despreocupada como os seus autores pensam em quem vai habitar as suas obras, como teorizam sobre temas que não passam para o desenho e para a obra (quero acreditar que teorizam), procurando apenas uma imagem depurada e fria. 

Será que os arquitectos também estão á procura de fazer arquitectura sem pessoas?

As pessoas só vão desarrumar o espaço que está todo certinho…que chatice…lá se foi o alinhamento do sofá com a mesa…Será isso tão importante?

Vemos uma conferência de um arquitecto, com o objectivo de aprender algo sobre arquitectura, a criação de ambientes para o homem, conceitos espaciais, ideias desenvolvidas ou apenas pensamentos. Apenas assistimos a uma propaganda publicitária, vendedores de “coisas”, podemos chamar arquitectura? 

Entramos por aqui…temos duas salas...vamos por ali…temos os quartos…

Será que os arquitectos também estão á procura de fazer arquitectura sem conceito?

Como uma poesia é mais que uma simples conjugação de versos, a arquitectura é mais do que uma planta no papel, fachadas com um jogo de saliências e reentrâncias equilibrado, um conjunto proporcionado e alinhado. 

Quando projectamos uma casa ou museu, dizemos que o projecto vai ter duas, cinco ou sete salas….? ou que ela terá a qualidade, de ser um lugar de inspiração para o Homem? Um lugar para alguém falar e sentir vontade de conversar? 

                                                                                                João Pedro Barbosa

House 1+1=1

Arquitectura - João Laranja Queirós
Colaboração - Ricardo Gonçalves, João Barbosa
Estruturas - Tiago Carneiro (Engº)
Águas, isolamento térmico e acústico - Margarida Teixeira Martins (Engª)
Energia eléctrica - Rui Amorim Aragão (Engº)
Electricidade, radiodifusão, televisão e telefones - Rui Amorim Aragão (Engº)
Gás - João Paiva Costa (Engº)

Empreiteiro geral de estruturas - Soares & Grego, Lda.
Empreiteiro geral de acabamentos - Editecpal Engenharia e Construção, Lda.
Director técnico da obra - Eng.º Sérgio Almeida
Fiscalização - Eng.º Tiago da Silva Sá e Eng.º Tiago Moreira Carneiro

Fotografia - João Laranja Queirós

 
Quando confrontados com a oportunidade de fazer este projecto, uma habitação unifamiliar no Lugar da Pedra Alta, em Vila Nova de Gaia as nossas preocupações passaram por explorar um objecto arquitectónico, que obedecesse aos limites do lote 14 X 7 metros, ao programa exigido e que fossem exploradas questões arquitectónicas que consideramos serem fundamentais em arquitectura .

A interpretação do mundo através do reconhecimento de estruturas geométricas abstractas, foi no passado assim como no presente, objecto de estudo e uma espécie de entendimento da própria beleza do mundo.

Desde as formas mais simples às mais complexas, quer sejam simétricas ou equilibradas, a composição de uma boa forma parece estar inerente a um conjunto de estruturas geométricas, em que as partes e o todo funcionam como um só.

Aceitando essas premissas como “leight motif” para a nossa criação, procurou-se desenvolver um objecto em que por si só teria uma geometria  tão forte e tão una que qualquer construção que se unisse a este no futuro (lote 12), nunca iria perder o poder de ser um objecto arquitectónico único (1) encostado a um elemento estranho, o outro (1). 

No desenvolvimento dessa investigação, e por razões que tiveram que ver com o dimensionamento do lote, aceitamos que o quadrado, enquanto forma pura, poderia servir de base para a composição das plantas e dos alçados, o que resultou na hierarquização dos espaços e dos vãos, que se desmultiplicam em diferentes dimensões.

Para além disso interessou-nos também a questão da “massa” enquanto elemento tridimensional gerador de espaço, ou seja, a busca de um volume susceptível de ser escavado segundo diferentes profundidades resultantes em  jogos de luz e sombra.

Está presente nesta construção a ironia quase surreal, de que a “massa” pode levitar, reflectindo leveza.


Definimos que, com base nas dimensões do lote, emergia um corpo rectangular, que se se podia dividir em dois cubos de 7x7. A configuração do terreno e a diferença de cotas patente de uma frente do terreno para outra, correspondente a 3 metros, permitiu que volume pudesse pousar um extremo na cota da rua de cima e o restante legado em aparente suspensão.

Desta feita, o programa não foge ao “tradicional”, quartos e instalações sanitárias no piso 1; entrada, área de distribuição, cozinha, instalações sanitárias e sala comum no piso 0, e sala social, instalações sanitárias, escritório e garagem no piso -1.

No sentido de reforçar a ideia de que a estrutura geométrica é parte integrante do todo, os espaços do programa foram divididos e hierarquizados em estruturas regulares. Ou seja em múltiplos ou submúltiplos do nosso quadrado de 7x7 inicial.


Uma das questões que se nos pareceu bastante interessante, reflexo de um gesto de modernidade, foi a composição dos corpos por equilibrio visual e não por simetria. Ou seja, procuramos que os alçados, apesar de sustentados numa forma regular, encontrassem o seu equilíbrio visual na composição da abertura de vãos.
Por outro lado, e levando ao extremo a noção estereotómica  do todo e das partes enquanto elemento uno, optamos pela construção dessa massa em betão branco, em betão, por que é realmente a matéria da produção arquitectónica da contemporaneidade, e branco porque é o mais próximo da pureza, e do todo.
 Para além destas questões meramente formais e ou conceptuais, o diálogo com o cliente serviu sempre de motivação para estabelecer novas  fronteiras.
 A resolução das questões que consideramos essenciais para a formalização da volumetria, passaram por pedir a alteração ao alvará de loteamento, e é neste momento, que surge o projecto do outro lote, revolucionando por completo aquelas que eram as premissas iniciais.
 
O entendimento de uma forma que não era pensada para se casar e que de repente, contornando a simetria, resulta numa dinâmica que reproduzimos com a operação de 1+1=1. Duas habitações que, não deixando de respeitar as diferenças entre clientes, tem no equilíbrio entre os dois volumes, garantidas a unidade e ao mesmo tempo a complexidade da divergência nas propriedades dos espaços.





























  
O rigor da malha que sustenta as estruturas espaciais, estende-se para além da bidimensionalidade até á tridimensionalidade, incorporando o rigor construtivo, a continuidade dos planos, a sequência dos alinhamentos e das estereotomias.


A depuração da forma final é a condicionante mais intensa, sublinhando a massa de betão branco e reduzindo as outras matérias à sua expressão menor. A preocupação de quase anular a expressão das caixilharias, trás uma leitura de bloco maciço perfurado pelos vãos. 

A continuidade garantida pela materialidade do betão branco é descontinuada quando os vãos que de dia representam sombra, á noite se iluminam invertendo as relações de forma fundo.

A luz é factor determinante na composição dos alçados, mas também na definição dos espaços interiores, por demarcar planos, pontuar momentos, garantir hierarquias, envolver matéria e ela própria se transformar em matéria.

Toda a investigação formal, no novo lote, foi no sentido de dar continuidade às premissas já estabelecidas ainda que sem torções nem grandes desvios orçamentais.





















  
Depois de, os dois projectos estarem completamente definidos, inicia-se o processo de aprovação dos projectos em 2003, obtendo-se a licença em 2006, e terminando a construção em 2009.

Como condicionante irrevogável, tivemos 270.000 euros para a construção de cada uma das habitações, sem possibilidade a desvios orçamentais. Aconteceu uma gestão de materiais, a par da simplificação de desenho, que se sustentou no princípio “less is more” absolutamente compatibilizado com conceito do projecto.
 
O custo por metro quadrado ficou abaixo dos 900 euros. Construíram-se os edifícios em dois anos, em betão branco, com pisos em soalho de riga e mármores nas casas de banho, onde a maior parte do mobiliário foi incorporado na arquitectura, com um orçamento esmagado.

O resultado final satisfaz-nos enquanto arquitectos, por ser reflexo da nossa consciência profissional, apesar de, durante o processo da construção o cliente do lote 12, ter objectado o nosso acompanhamento.


Da Essência

Actualmente designamos como a essência de algo, como um processo de generalizações de algo particular. Retirando tudo o que é considerado irrelevante, que possa confundir a sua leitura, até encontrar o seu aspecto mais puro. O que fazemos é retirar os aspectos que caracterizam algo, a sua individualidade, para a tornar algo pertencente a uma classe de objectos, iguais e sem alma.

Kahn pelo contrário interessa-se mais pelo particular, pelas qualidades singulares de cada coisa, na busca da razão de ser de cada objecto, da sua alma. É nesta busca pelo elemento vital que procura a essência.

O conceito de essência é fundamental na vida. Não só quando é aplicada á arquitectura, mas também quando é usada relativamente ao Homem. Kahn acredita que cada ser humano tem determinadas características que o levam a querer ser uma coisa e que cada um deve procurar essa vontade de ser, essa essência. Que é a estrutura base de tudo o que é.

Kahn transpõe essa procura para o seu conceito de arquitectura, nos seus instrumentos e nos seus elementos. Estas noções misturam-se e, simultaneamente, podem completar-se.

Esta procura pela essência implica uma redescoberta do mundo, não partir de conceitos pré-definidos, mas recuar no tempo e perceber a verdadeira origem das coisas. Isso implica uma noção de história. Só através dela poderemos chegar ao nascimento de cada coisa, e aí encontraremos a sua ordem e a sua razão de ser.
Sketch by Louis I. Kahn
                                                                                                        
É importante compreendermos que determinada coisa teve o seu princípio e a sua razão de existir, que em determinado momento, por determinada razão, em determinadas circunstâncias, houve a necessidade de surgir. Á medida que o tempo vai passando, as coisas vão perdendo o seu sentido, a sua razão de existir, a sua origem, a sua essência. Utilizamos conceitos, já alterados no seu significado pelo tempo, sem nos perguntarmos o porquê das coisas. É fundamental procurar sempre na nossa mente, como cada coisa nasceu. Só assim poderemos intervir na sociedade de forma consciente e em harmonia com a natureza. 

“…é bom que a mente retorne ao inicio: porque, para qualquer actividade humana constituída, o inicio é o momento mais maravilhoso. Pois é nele que está todo o seu espírito, todas as suas potencialidades, que constantemente devemos retirar inspiração para as necessidades actuais.” Louis I. Kahn 

Não podemos confundir a importância dada ao passado, com nostalgia. Tudo o que é feito faz parte de um processo que se desenvolveu ao longo de milhares de anos. Kahn encara o progresso de uma forma positiva. Entende no entanto que a essência de cada coisa é imprescindível, saber respeitá-la e usá-la.

Mais do que o projecto, o importante é a capacidade de compreender o que é uma coisa. Como poderemos nós projectar uma escola, sem saber o que é uma escola, qual a sua função, o que representa para o ser humano, qual a sua função, como surgiu e porque surgiu. 

“A escola começou com um homem debaixo de uma árvore, um homem que não sabia que era professor, e que se pôs a dissertar sobre o que tinha compreendido com outras pessoas, que não sabiam que eram estudantes. Os estudantes puseram-se a reflectir sobre o que se tinha passado entre eles e sobre o efeito benéfico daquele homem. Desejaram que os seus filhos também o ouvissem e, assim, se ergueram espaços, e surgiu a primeira escola. A fundação da escola era inevitável porque forma parte dos desejos do homem. Todos os nossos complexos sistemas de educação (…) derivam daquela pequena escola, mas hoje esqueceu-se o espírito com que começou.” Louis I. Kahn  

Este texto reflecte, o que Kahn entende, quando fala da procura da essência de uma obra arquitectónica, explicando como surgiu a escola. Defendendo que um projecto de uma escola, deve ser resolvido como escola e não como uma escola. Em primeiro lugar temos de reflectir, sobre o que faz a escola ser diferente, de um museu, de uma habitação, ou de qualquer outra coisa. 

                                                                                                  João Pedro Barbosa